Acampando com as crianças
6 de dezembro de 2016
Camille Reis
20 de dezembro de 2016

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A Resposta Definitiva

Não era usual interromper a brincadeira e retornar para casa, espontaneamente, antes de ouvir, mesmo que ao longe e entrecortado por outros ruídos urbanos, como cachorros latindo ou louças tilintando para o jantar, os primeiros acordes da música de “Os Trapalhões”. O programa servia como portal entre o mundo encantado do fim de semana na praça e a semana de obrigações na escola.

Não era comum, também, nem ao menos almejável, que aqueles meninos quase que da última camada social, encontrassem, praticamente por intervenção divina, seus respectivos caminhos no emaranhado de afluentes do rio que se assemelha a vida.

Certo é que, desviando-se dos afluentes pedregosos, rasos e traiçoeiros, chegaram à fase adulta, após maratona de trocas de escolas públicas, formados, saudáveis e empregados. Um deixou-se ficar pelo bairro das primeiras lembranças, trabalhou uma vida inteira na mesma empresa de porte médio, casou-se cedo e, quase que imediatamente, providenciou os pequenos, um, dois, três, e, rindo-se, comentou com o avô dos meninos: “acho que está bom”. O outro amigo bateu asas, morou em São Paulo, Rio, exterior, empregou-se em uma multinacional, por necessidade ou puro ego fez mestrado e emendou idiomas, não casou simplesmente porque não deu tempo, filhos idem e quando cobrado pelos pais, ressentindo-se ponderava: “minha prioridade é outra, ainda dá tempo”.

Existe uma teoria filosófica, difundida por Nietzsche, denominada “O Eterno Retorno” que expõe a pessoa humana à seguinte questão: imagine que, em profunda solidão, você se depara com uma entidade. A criatura se aproxima e lhe faz uma proposta, “essa vida que tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras, não haverá nada de novo, cada dor e cada prazer há de retornar.” Como você responderia a proposta? Não aceitaria e amaldiçoaria a serpente que lhe trouxe a condenação? Ou consideraria uma benção divina e agradeceria ao Redentor por tanta graça? A forma como reage à questão esclarece como você leva a sua vida e faz questionar o rumo que dá a ela.

A maioria de nossas boas reflexões se dá no aconchego de um travesseiro, enquanto ouvimos música, fazemos uma viagem ou em períodos especiais do ano, como o Natal. O amigo que ainda mora no bairro de suas infâncias, ao passar pela praça, lembrou-se do companheiro e, principalmente, dos sorrisos de um ser inocente. Preocupado com a vida solitária do amigo, enviou-lhe uma mensagem para combinar o churrasco de fim de ano. “Dia 27 é bom para você? Se não, pode ser dia 28 ou 29. Quer passar o Ano Novo aqui?” Uma das músicas mais icônicas de Bob Dylan complementa perguntas fundamentais da vida humana com uma resposta emblemática, “the answer my friend, is blowing in the wind”, que significaria, em tradução grosseira, que a resposta meu amigo (para essa pergunta tão difícil, quase impossível) está voando com o vento.

O celular do amigo vibrou enquanto segurava a pesada porta da cafeteria com o corpo e sustentava um copo duplo de café. Leu a mensagem já na calçada esvaziada por um inverno rigoroso. Que vida gostariam os amigos de reviver? Aquela que se preencheu com gente, calor dos trópicos e certa falta de grana ou, ainda, a outra sem amarras, sentimentos, mas, com boa estabilidade? Quem dos amigos responderia um sonoro e definitivo SIM, dei-me a mesma vida novamente!

Abriu a mensagem, mas, não quis respondê-la de imediato, pôs setinhas azuis com longas reticências. Mesmo sabedor de que não poderia estar lá nem no Natal nem tão pouco no Ano Novo, preferiu o mistério que provê dúvida e esperança. No hotel eu retorno, pensou. Caminhou longas quadras, cabeça baixa, ruas frias e vazias, retumbando a dúvida se não refletiam, literalmente e de propósito, a frieza de seu despovoado coração. The answer my friend is blowing in the wind.

André Rezendeand

Administrador de empresas, Auditor da Secretaria de Estado da Fazenda e pai do Arthur e Lucas.