A construção da autoestima
3 de abril de 2017
Marcio Garcia
5 de junho de 2017

A emoção de uma nova vida

 

Texto: Auxiliadora Mesquita | Fotos: Juçara Hobold – Eu Que Ti

Existem mais de cinco mil crianças aptas a serem adotadas no Brasil. E existem mais de trinta mil pessoas querendo adotar. Com esses números, é fácil imaginar que as crianças passem um tempo bem pequeno nos abrigos, não é mesmo?

Infelizmente, não é bem assim: 70% dos interessados em adotar procuram uma criança com menos de 3 anos de idade. Muitos preferem bebês, brancos e sem irmãos. O resultado é uma espera bastante longa e triste para os que continuam crescendo nos abrigos. Por isso é tão importante falar sobre a adoção tardia, a adoção de crianças com mais de 3 anos. Para muitas pessoas, a ideia de adotar uma criança “já grandinha” vem cercada de preconceitos. Afinal, essa criança já teria uma história vivida e já seria mais independente. Sendo mais difícil de adaptar ou de ser moldada. Mas tanto as pessoas que já adotaram crianças maiores quanto as que trabalham com adoção são unânimes em dizer que para o amor isso não é uma barreira.

É o caso de Eliane e Moacir. Eles eram bem jovens quando se casaram e o desejo era uma família bem grande. Mas logo descobriram que não poderiam ter filhos. “Descobrimos cedo que não poderíamos gerar filhos biológicos”, conta Eliane.

“No início foi um baque, ficamos um ano sem tocar no assunto, até voltarmos a outros médicos e escutar várias vezes que seria impossível engravidar”. Os dois decidiram viver a vida e, por um tempo, foi bom assim. Mas os amigos, que sabiam do desejo enorme dos dois de ter uma família, sugeriam várias vezes a adoção. Eliane conta que Moacir até gostava da ideia, ela é que não aceitava muito bem. “Eu vou confessar que eu era resistente em relação adoção, tinha meus argumentos particulares”.

Mas a vida continua e, como sempre, traz surpresas. Eliane revela que teve uma “experiência particular” com Deus e sua visão mudou sobre o assunto. Afinal, como ela lembra, está em Efésios 1-5, que somos todos adotados por Deus. “Foi como se uma máscara caísse dos meus olhos, comecei a ler histórias de adoção, ver filmes sobre adoção.” Logo tiveram a primeira reunião no fórum. E como sempre desejaram uma família grande, não tiveram dúvidas: no perfil, escreveram que queriam adotar um grupo de irmãos. E não escolhemos sexo nem raça, pois para Deus não existe padrões”, relata Eliane.

Começava aí a gestação dos “quadrigêmeos de idades diferentes”, como brinca carinhosamente Eliane. Seis meses após o cadastramento, Eliane e Moacir estavam frente a frente, pela primeira vez, com os filhos Iago Davi, Igor Samuel, Julian Daniel e Vitória Sara. Foi um “amor sobrenatural”, como gosta de dizer Eliane. “Naquele dia nossa vida mudou completamente e descobrimos o significado do verdadeiro amor. Muitos nos chamaram de loucos, mas nós só conseguimos sorrir e agradecer a Deus por ter nos escolhido para sermos pais desses quatro tesouros”.

É claro que onde há muito amor envolvido, há também muito trabalho a ser feito. Como em qualquer família, criança precisa de cuidado, atenção, carinho. Especialistas garantem que a adoção tardia é plena de sucesso, mas na maioria das vezes há uma fase de ajustamento, de construção de um vínculo afetivo. Afinal, a criança que chega precisa descobrir e se adaptar às práticas da família, seus hábitos, valores e dinâmica. Por outro lado, os pais adotivos vão descobrindo quem é aquele ser que nasceu para eles – seus gostos, seus sentimentos, sua personalidade, seu jeito de ser. Diferente de um filho biológico? Com certeza, não. Afinal, filhos são sempre uma caixinha de surpresas!

Eliane nos conta que o processo de adaptação foi bem mais tranquilo do que ela esperava. Olha, foi tão de Deus nossa adoção que se eu te falar que tivemos dificuldades, vou estar mentindo. É claro que, por sermos  pais de primeira viagem, e de repente pais de quatro, tivemos que criar uma rotina para tudo: hora de comer, hora de dormir, hora de brincar, hora de estudar. E até hoje isso funciona aqui em casa…” E como toda mãe e todo pai, seu maior temor é acertar, educando certo. 

“Acreditamos que a maior dificuldade é educar, ensinar princípios e caráter. E isso acontece com qualquer pai ou mãe, adotivos ou biológicos”, revela Eliane.

Na casa da família, o passado das crianças não é um tabu. Nada do processo de adoção ficou escondido, pelo contrário. “Temos um diário que fiz contando toda nossa história, descrevendo cada detalhe. Ali escrevo também as peraltices deles, as aventuras e fotos. Temos um vídeo com fotos desde o primeiro encontro, com apresentação na igreja, a primeira festa à fantasia, o primeiro dia na escola. E com nossa trilha sonora de fundo musical, a música Um Milagre, do grupo gospel Quatro Por Um. Eles amam ver o vídeo e folhar o diário”, conta Eliane.

No final das contas, não tem receita para adotar porque não tem receita para ser mãe ou pai. Se por um lado não é interessante ter expectativas irreais sobre a adoção, seja tardia ou não, por outro lado o preconceito pode fechar muitas portas para o amor e a alegria de formar uma família. Desmistificar a adoção tardia pode levar as pessoas a procurar informação e orientação sobre o assunto. E, quem sabe, descobrir que adotar é um ato sério e complexo. Mas é também um ato de amor.

“Mas não façam isso por impulso, para o processo ser mais rápido, porque já vimos isso acontecer e não funcionar. Abram a mente e o coração. A maternidade vai além de gerar um filho”.

O processo é longo, a espera cheia de ansiedade. É um pré-natal diferente, como explica Eliane, sem tempo determinado para o nascimento e com toda a burocracia necessária. Mas, como em um parto, há algo de poderoso e emocionante em ver uma nova vida chegando para a sua. Como confessa Eliane, “Baseado na nossa experiência, podemos dizer que a adoção tardia funciona, para nós foi maravilhosa”. E acrescenta, emocionada: “É sobrenatural. O maior presente de Deus. E nossa herança mais valiosa”.


Conheça o projeto

 

Para famílias que geraram um filho no coração!

Por: Juçara Hobold  |  Eu Que Ti

Veja como você pode me ajudar a espalhar amor por aí!

Eu acredito que o AMOR e os bons EXEMPLOS transformam! E por isso, criei este projeto para juntar TUDO o que eu mais AMO: fotobrincar, inspirar pessoas e dar alegria para as crianças acolhidas em casas lares!

Assim nasceu a sessão “FILHOS DE ALMA”, um espaço todo especial para compartilhar  os MOMENTOS FELIZES das famílias que passaram pela experiência de uma história de adoção.

A ideia é simples! Nós fazemos uma sessão para guardar um dia FELIZ para SEMPRE, com as fotos. Mais famílias se inspirarão na sua história de AMOR e o lucro da sessão será revertido em sessões de psicoterapia para alegrar o coração de amiguinhos que moram em casas de acolhimento!

Por que mini amiguinhos precisam de psicoterapia?

Infelizmente muitas crianças no Brasil e no mundo conhecem de perto a história do Lobo Mau. Esse lobo tem vários nomes: abandono, rejeição, fome, abuso sexual, violência, (chega, né? Tá bom…).

​“Alguém” escuta os anjinhos da guarda dessas crianças e as retira do perigo. Elas vão morar em uma CASA que tenta ser um LAR. Porém, no coração de uma criança, esta situação é como se fosse uma prisão, afinal, de um dia para o outro retiraram dela toda a sua história.

​Enquanto um turbilhão de sentimentos surgem nos mini corações, nossa “amiga” justiça caminha a passos largos e lentos. O “Lobo Mau”, responde a um processo e vive livre na maioria dos casos. E nossos amiguinhos permanecem nas Casas que tentam ser Lares. Essas casas fazem o possível para dar carinho e atenção, porém, não são capazes de ajudar nas marcas mais duras deixadas pelo Lobo Mau”.

​Por isso, alguns amiguinhos precisam de ajuda especializada de profissionais que dedicaram a vida a estudar formas de prepará-los para um futuro FELIZ.

​Em 2017, tive a alegria de fazer parte de uma corrente do bem, e por isso, resolvi direcionar o lucro deste projeto para o apadrinhamento de crianças que precisam de terapia. Esses profissionais também colaboram em forma de superdescontos nas sessões. Cada um fazendo um pouquinho. Todos tentando encontrar um caminho para um futuro feliz para nossas crianças e prepará-las para receber um lar de verdade e uma família que lhe conte histórias de amor.

​Ah!!! Mas por que uma fotógrafa tem que doar dinheiro para pagar terapia?

Bom, uma dica! Seja voluntário por 1 mês em uma casa lar e veja como elas sobrevivem! Depois me conta! 😉

Onde moram os amiguinhos?

Em especial no ano de 2017, as sessões de terapias são destinadas a crianças com perfil de adoção tardia que estão acolhidas na Casa de Acolhimento A.M.A.R, em São José.

Você também pode doar sessões de terapia, basta entrar em contato com a casa. Lá tem uma assistente social e uma psicóloga nota 10! Elas vão curtir receber sua ligação!

Casa de Acolhimento A.M.A.R – 

Rua Pedro Bunn, 637, Barreiros, São José – SC – Fone: (48) 3034 4555


Palavra de Especialista 

 

Por: Heloisa Sampaio | Psicóloga – CRP 05/49813 hsampaio.psicologia@gmail.com

A adoção é um processo tão lindo, no qual a doação dos pais aos filhos e dos filhos aos pais é essencial para o desenvolvimento de vínculo

Diferente da gestação biológica, em que o corpo da mãe já está banhado de Oxitocina – o hormônio do amor -, que é um importante facilitador de formação vínculo mãe-bebê, a gestação do coração requer construção árdua e diária de vínculos que se dá na medida em que pais e filhos vão se aproximando, se conhecendo, se descobrindo, e esse investimento transforma-se em um vínculo capaz de transformar a história de uma família – o amor. Com todas as particularidades envolvidas na formação de vínculo no processo de adoção, existem 3 condições imprescindíveis para seu sucesso.

1 – Aceitação

Gerar um filho a partir do coração é, sem dúvida, um processo mágico, é um investimento de amor, carinho e dedicação por alguém que está por vir. O processo é muito angustiante, pela sua própria natureza e incerteza, mas principalmente pela burocracia que atravessa a espera do tão sonhado filho. Os pais vivenciam um emaranhado de emoções e sentimentos que controlam o “ninho emocional” que receberão seus filhos. Por sua vez, a criança ao chegar à nova família, virá carregando uma bagagem de vida, pequena e importante, que já é influente em sua psique. A origem do filho do coração tem diferenças importantes entre a gestação do filho biológico, e não é pertinente a nossa saúde psíquica negar esse fato. Negar a história e a origem de um filho, é negá-lo enquanto sujeito. Somos todos frutos da nossa história, de uma pré-história e de todas nossas possibilidades de ser, e isso nada diminui o valor da família formada pelo coração. Como diz Schettini: “Diferente é a história, não o amor. Incomuns são as circunstâncias e não o afeto.”

2 – Naturalidade

A adoção é uma parte marcante e decisiva na vida de uma família formada por meio da adoção. É um marco que faz um sujeito filho e outro pai, mãe, avós, tios, primos (…) e isso repercute e direciona toda a história da família. Aceitá-la como um momento decisivo na vida do sujeito é o primeiro importantíssimo passo para poder lidar com naturalidade, que: “Sim, meu filho/neto/sobrinho João foi adotado”, e graças a isso, hoje ele é parte de nossa família e nós somos a família dele. Os pais estarem confiantes de que seu afeto e amor poderão auxiliar seu filho em sua adaptação e em todas as dificuldades, medos e curiosidades que estão por vir, lhe dará segurança e o sentimento de pertencimento, independentemente de suas origens. Esse respeito é o alimento que fortalecerá o vínculo familiar.

3 – Respeito a História

“Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que somos feitos de histórias”. (Eduardo Galeano). Todo sujeito é constituído por história, e ela inicia antes mesmo de seu nascimento. Quando uma família sonha com um filho e o planeja, a sua história já começa a ser escrita. Ele já tem nome, uma família. Ao chegar a seu lar, a criança irá continuar a escrever essa história, que certamente será influenciada pela pequena bagagem de escritos já existentes, como também pelo “ninho psíquico” construído pelos seus pais. As direções possíveis desse enredo serão inúmeras e desta forma, igualmente como um livro, o segundo capítulo, apesar de ser uma continuação do primeiro, é sempre um mistério. Novos personagens – a família – serão integrados à história da criança e terão papel fundamental no desenrolar desta aventura. Nessa história, a família será o principal “porto seguro“ do protagonista, que irá se aventurar pela vida com a certeza de que o amor é um afeto e não sangue. Este livro irá contar uma história jamais escrita, a formação de um sujeito novo e diferente de qualquer um já existente – ele é único.


Conheça os caminhos para a adoção

 

1 – Querer

Primeiro passo é ir à Vara de Infância e Juventude do seu município e saber quais documentos deve começar a juntar. A idade mínima para se habilitar à adoção é 18 anos, independentemente do estado civil, desde que seja respeitada a diferença de 16 anos entre quem deseja adotar e a criança a ser acolhida. Os documentos necessários são identidade; CPF; certidão de casamento ou nascimento; comprovante de residência; comprovante de rendimentos ou declaração equivalente; atestado ou declaração médica de sanidade física e mental; certidões cível e criminal.

2 – Dar entrada no pedido

Será preciso fazer uma petição preparada por um defensor público ou advogado particular para dar início ao processo de inscrição para adoção (no cartório da Vara de Infância). Só depois de aprovado, o nome será habilitado a constar dos cadastros local e nacional de pretendentes à adoção.

3 – Curso

O curso de preparação psicossocial e jurídica para adoção é obrigatório. Após comprovada a participação no curso, o candidato passa por avaliação psicossocial com entrevistas e visita domiciliar feitas pela equipe técnica interprofissional. Algumas comarcas avaliam a situação socioeconômica e psicoemocional dos futuros pais adotivos apenas com as entrevistas e visitas. O resultado dessa avaliação será encaminhado ao Ministério Público e ao juiz da Vara de Infância.

4 – Quem pode adotar

Pessoas solteiras, viúvas ou que vivem em união estável também podem adotar; a adoção por casais homoafetivos ainda não está estabelecida em lei, mas alguns juízes já deram decisões favoráveis.

5 – Perfil

Durante a entrevista técnica, o pretendente descreverá o perfil da criança desejada. É possível escolher o sexo, a faixa etária, o estado de saúde, os irmãos etc. Quando a criança tem irmãos, a lei prevê que o grupo não seja separado.

6 – Certificado de habilitação

A partir do laudo da equipe técnica da Vara e do parecer emitido pelo Ministério Público, o juiz dará sua sentença. Com seu pedido acolhido, seu nome será inserido nos cadastros, válidos por dois anos em território nacional.

7 – Aprovado

Você está automaticamente na fila de adoção do seu estado e agora aguardará até aparecer uma criança com o perfil compatível com o perfil fixado pelo pretendente durante a entrevista técnica, observada a cronologia da habilitação. Caso seu nome não seja aprovado, busque saber os motivos. Estilo de vida incompatível com criação de uma criança ou razões equivocadas (para aplacar a solidão; para superar a perda de um ente querido; superar crise conjugal etc.) podem inviabilizar uma adoção. Você pode se adequar e começar o processo novamente.

8 – Uma criança

A Vara de Infância vai avisá-lo que existe uma criança com o perfil compatível ao indicado por você. O histórico de vida da criança é apresentado ao adotante; se houver interesse, ambos são apresentados. A criança também será entrevistada após o encontro e dirá se quer ou não continuar com o processo. Durante esse estágio de convivência monitorado pela Justiça e pela equipe técnica, é permitido visitar o abrigo onde ela mora; dar pequenos passeios para que vocês se aproximem e se conheçam melhor. Esqueça a ideia de visitar um abrigo e escolher o seu filho entre aquelas crianças. Essa prática já não é mais adotada para evitar que as crianças se sintam como objetos em exposição, sem contar que a maioria delas não está disponível para adoção.

9 – Conhecer o futuro filho

Se o relacionamento correr bem, a criança é liberada e o pretendente ajuizará a ação de adoção. Ao entrar com o processo, o pretendente receberá a guarda provisória, que terá validade até a conclusão do processo. Nesse momento, a criança passa a morar com a família. A equipe técnica continua fazendo visitas periódicas e apresentará uma avaliação conclusiva.

10 – Uma nova família

O juiz profere a sentença de adoção e determina a lavratura do novo registro de nascimento, já com o sobrenome da nova família. Existe a possibilidade também de trocar o primeiro nome da criança. Nesse momento, a criança passa a ter todos os direitos de um filho biológico.