Travesseiro de brincar!
2 de fevereiro de 2017

Do bater de asas da borboleta e outras incertas coincidências

      Acordou com o barulho da enésima tentativa de seu pai de ligar o carro. Alguns especialistas da vida urbana dirão que fora por simples coincidência que o carro do pai não pegou naquela manhã, que somente ao chegar ao ponto de ônibus percebera que os motoristas estavam em greve; que fora coincidência, ainda, optar por ir ao centro numa das diversas ‘Kombis’ que oportunamente faziam o trajeto naquela manhã abafada de segunda-feira. Ainda, por coincidência, na sua vez, cedera seu lugar a uma idosa que esperava numa posição retardatária na fila. Por pura coincidência, diriam alguns, pegou o carro de trás; por coincidência sentou-se no último banco, e por coincidência fitou diretamente nos olhos uma passageira que se sentou, no banco do meio. Ainda que tivesse crescido dentro de uma área finamente delimitada pelas fortes amarras de uma timidez genética, arriscou-se a dizer um oi, que pelo bater de asas de borboletas no Paquistão, obteve um retorno encantador, traduzido em um sorriso tão simpático que dizia, mais do que com palavras, “venha, estou pronta para lhe conhecer”.

     Seria possível o bater de asas de uma borboleta alterar o fluxo natural das coisas e provocar, por exemplo, um tufão do outro lado do planeta? Em 1963, Edward Lorenz, pesquisando a teoria do caos se deparou, pela primeira vez, com o Efeito Borboleta no qual os fatos estão interligados sensível e diretamente pelas suas condições iniciais. Não é bem verdade que as asas de uma borboleta possam provocar um tsunami, sendo essa uma tradução popular para demonstrar que, por exemplo, uma banal rejeição amorosa a um adolescente universitário pode provocar uma onda revolucionária em 17 países com milhares de mortes. Neste caso, o bater de asas foi um fora de uma pretendente a um jovem chamado Mark Zuckerberg que, por vingança, criou uma ferramenta de pesquisa dos rostos mais bonitos da faculdade denominado Facebook, ferramenta que anos mais tarde foi utilizada para organizar a revolução, no exemplo o tsunami, denominada Primavera Árabe.

     Algo tão pequeno, uma frustação juvenil, provocando acontecimento tão grandioso. No cotidiano, sem percebermos, há o incessante bater de asas de borboletas que provocarão consequências inesperadas. A teoria ensina que não existe nada em nossas vidas que seja completamente sem importância. Não existe nada inteiramente desconectado. O carro quebrar, as asas da borboleta, encontrar-se com a futura esposa numa condução alternativa… consequência. Há um ditado americano, “hindsight is always 20/20”, que significa que deveria ser mais fácil entender os fatos após terem acontecido, porém, um dos principais desafios da existência humana é conviver com os mistérios da vida, ou seja, o mesmo retumbante “por quê?” ressoa tanto na queda do avião dos Mamonas quanto no voo final da delegação da Chapecoense. Alguns familiares, amigos, fãs ou torcedores se perguntam o que provocou tamanha tragédia, qual bater de asas alterou os fatos para que chegassem naquele desfecho.

     Por coincidência, após a viagem de Kombi até o centro, trocaram celulares, mensagens, áudios, vídeos e alguns encontros depois começaram a namorar. Casaram, viajaram, procriaram e criaram os filhos. Tudo devido a uma bateria arriada. Tudo advindo de um dia que, aparentemente, começara tendo tudo para dar errado.

     Por coincidência, há neste momento alguém precisando de ajuda de todo tipo: fome, desamparo, medo, solidão. Por coincidência, presenciamos uma revolução humana que nos aproxima da tecnologia, da interligação, da informação, mas, nos afasta do afago, das pessoas e do contato direto. A violência urbana aumenta assustadoramente, os políticos se tornam, ou são revelados, cristalinamente mais desonestos. Alguém hoje lhe pediu uma moeda, puxou papo, mas, você não notou, deixou de dizer um “bom dia”, faltou no futebol, adiou aprender um idioma ou tocar um instrumento. Por coincidência, não visitou os pais no fim de semana, o tempo está se esgotando. Ainda, por pura coincidência, alguém despretensiosamente escreveu um texto e você, que nunca abriu esta revista, que nunca leu esse tipo de texto, por coincidência, chegou até aqui.

André Rezendeand

Administrador de empresas, Auditor da Secretaria de Estado da Fazenda e pai do Arthur e Lucas.