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Uma relação longa, intensa e sem “check out”

 

Texto: Auxiliadora Mesquita | Fotos: Catavento Fotografia Infantil

Irmãos: uma relação intensa, longa e sem checkout! Afinal, irmãos não deixam de ser irmãos por nenhum motivo ou documento. Uma relação assim, tão poderosa, com certeza tem seus altos e baixos, alegrias e dissabores. Para os pais, uma boa relação entre irmãos é um prazer e um alívio. Já uma relação conflituosa entre eles é motivo de angústia e preocupação. Mas como fazer para que esse relacionamento tão importante seja bom e harmonioso?

Nosso primeiro “outro”

       Como todo relacionamento, o comportamento dos irmãos uns com os outros tem a influência de muitos fatores e pode variar muito no tempo. A diferença de idade, a ordem do nascimento de cada um, a situação da família a cada nascimento e até a personalidade de cada irmão vão influenciar a maneira como as relações se desenvolvem. E, para aumentar o mistério, existem poucas pesquisas sobre o assunto.

      É interessante perceber que os estudos sobre o relacionamento entre os irmãos é relativamente recente, tendo surgido com mais força a partir dos anos 1990. Antes disso, o foco era sempre na relação entre pais e filhos. Agora, algumas pesquisas apontam que a influência do relacionamento entre irmãos é muito grande e, em alguns casos, pode até ser mais forte do que a própria relação entre pais e filhos. Mais um motivo para querer que tudo dê certo entre os hermanos, não é mesmo?

      Mas o que é que faz essa relação ser tão especial? Para as crianças é a primeira relação íntima e constante que terão com “iguais”, mas nem tanto. No relacionamento com papai e mamãe, mesmo em famílias muito democráticas, há uma hierarquia e o relacionamento é “de cima para baixo”. Já entre irmãos a coisa é diferente e há uma troca “horizontal”. E mesmo quando há uma grande diferença de idade existe, o fato de que todos são a mesma coisa: irmãos. Aprender a conviver assim é a primeira lição real de convivência social mais ampla.

Dividindo meu lugar no mundo

       É com nossos irmãos, que aprendemos a dividir brinquedos, comida, espaço e tempo. Principalmente, é com eles que aprendemos a compartilhar afeto e atenção. Com nossos irmãos descobrimos que não somos o centro do mundo, que temos de esperar a nossa vez e que nem sempre ficamos com o pedaço maior (aos nossos olhos). Daí que, se de um lado temos a chance de compartilhar diversão, segredos e aventuras, por outro também experimentamos o gostinho amargo de sentimentos como o medo de não ser amado, a angústia de perder o afeto, a inveja, a raiva… a lista é grande.

       De fato, estudos feitos mais recentemente indicam que a relação entre irmãos tem essa característica como constante: é um relacionamento carregado emocionalmente. E essas emoções podem ser positivas, negativas ou ambivalentes. Os especialistas ainda não sabem o caminho certeiro para conseguir que só as coisas boas fiquem por perto. Mas algumas dicas de bom senso podem ajudar os pais a fortalecer o lado bom e diminuir os problemas que uma convivência tão forte pode trazer.

Fortalecendo o amor fraterno

     A primeira e mais importante fase dessa convivência é a chegada do irmão mais novo (pois sempre haverá um primeiro e ele reinou absoluto durante algum tempo). Preparar esse encontro ajuda a começar a história com o pé direito. A ideia é deixar o irmão  mais velho participar de todo o processo, desde o começo.

     Chamar o irmão mais velho para fazer parte desse momento especial pode ser mais simples do que parece. Os pais podem, por exemplo, lembrar ao filho como são os bebês,  como ele era quando bebê e como vai ser quando o irmãozinho chegar. Conversar sobre o choro, o peito e a mamadeira, as fraldas, o cuidado que tem que existir. Também ajuda envolver o mais velho na compra das coisas do bebê. Deixar que acompanhe, dentro do adequado, o lado médico da gestação também é uma boa ideia – ultrassom, ouvir o coraçãozinho, tudo isso tem um lado “mágico” que pode causar aquela boa impressão sobre o convidado que vai chegar.

     Depois do nascimento, é importante não descuidar da atenção ao filho mais velho. Sabemos que um bebê novo em casa é cansaço e trabalho na certa.  Mesmo assim, vale a pena arranjar momentos e atividades que mostrem que o primeiro filho merece atenção e carinho do papai e da mamãe. Desde um passeio “exclusivo” ou uma comidinha favorita até um simples “deite aqui com a mamãe um pouquinho” podem fazer maravilhas.

     Deixar que o primeiro filho se sinta “esquecido” é fazer o caminho para o ciúme aparecer .

     O ciúme pode aparecer. Os sintomas incluem desobediência, choros e birras e comportamento desafiador. Agressividade com os pais ou até com o bebê também pode surgir. E tem aqueles que resolvem virar bebês de novo – afinal, parece ser o melhor caminho para ter atenção, não é mesmo? Enfim, nessas horas é preciso firmeza, mas também paciência. A melhor solução é dar aquela atenção de que já falamos. Uma dica  é atribuir alguma atividade para o mais velho em relação ao recém-chegado, assim ele se sente útil e ainda fica perto da mamãe.

Irmãos para sempre

     E depois dessa primeira fase? Ah, se as rosas não tivessem espinhos… O fato é que uma convivência tão íntima e intensa tem lá seus percalços. Na maioria das vezes, as disputas são contornáveis e as brigas passam, dando lugar às risadas e aos abraços. Como os conflitos costumam ser estressantes para os pais, vale a pena tentar ser a força mediadora entre os irmãos. É o que dizem os pesquisadores: a melhor intervenção dos pais nesses momentos é funcionar como um mediador, dando condições para que os irmãos se expressem e tentem negociar soluções para seus conflitos. Essa, inclusive, é uma lição que poderá ser levada para a vida toda.

     Dizem que irmãos estão se tornando coisa rara – a taxa de fecundidade no Brasil era de 4,4 filhos por casal nos anos 1980 e hoje está em 1,9 filhos por casal. Mas, para aqueles que terão irmãos em suas vidas, essa sim é a verdadeira “coisa” rara: um parceiro de experiências e descobertas, profundos conhecedores um do outro. E um apoio para toda a vida. Uma joia rara.

A chegada de Lucas, nosso segundo filho,  foi de muita expectativa e com um novo olhar. Quando meu marido e eu planejamos o primeiro filho, Arthur, tudo era novidade. A descoberta, a gestação, o nascimento. Tudo era por ele e pra ele. Nunca passou por nossa cabeça em ter apenas um filho. Sempre desejamos pelo menos dois. Lucas não foi planejado para a época, mas foi muito desejado. Arthur sempre desejou um irmão e a ligação entre eles é incrível. Não me esqueço de uma manhã em nossa casa, quando Arthur olhou pra mim, aliás, pra minha barriga, e disse: mamãe, tem um bebê na sua barriga, é um menino e vai se chamar Lucas. Eu, claro, fiquei surpresa na hora, pois não imaginava e nem passava na minha cabeça que estivesse grávida. Até que alguns dias depois foi confirmado a tão sonhada gravidez do segundo filho. Vocês já podem imaginar por que ele se chamaria Lucas. No ultrassom, Arthur já estava confiante na resposta da médica. Arthur, seu irmãozinho está a caminho, disse a médica. Lucas chegou num dia quente de verão.

  É incrível ver o amor surgindo entre irmãos, a amizade, o companheirismo e a afinidade que os dois têm. O olhar de admiração que o mais novo tem sobre o mais velho. Eles brincam e brigam também, mas são muito parceiros e se defendem. Arthur não aceita que ninguém brigue com o irmão e sai sempre em sua  defesa. São cúmplices nas brincadeiras, adoram ouvir música, dançar e jogar bola. É muito gostoso vê-los brincando juntos. Arthur é um bom professor, ensina no desenvolvimento de Lucas, nas atividades em casa e, em contrapartida, o irmão mais novo sempre prestes a lhe atender. Adoro ver Lucas dando altas gargalhadas com as palhaçadas do irmão. Sempre digo pro meu marido que eles tinham que ter vindo e fazer parte de nossas vidas. Não sei vê-los um sem o outro. Como se completam. Como se amam. As brigas passam rápido e logo estão brincando novamente. Sempre gostei de casa cheia e uma casa com duas crianças é ainda mais animada, mais alegre, e também mais barulhenta. E quando estamos cansados com tanto trabalho, pensamos e refletimos no lado bom dessa experiência por meio do amor que experimentamos em dobro.”

Luana Zimpeck e André RezendePais do Arthur (7) e do Lucas (3)

Os irmãos são tão unidos que até produzem vídeos, para o YouTube cantando e se divertindo, sempre juntos. Confira no youtube: MMIZ – Mundo Mágico dos Irmãos ZIMPECK


 

A construção do amor

Por Eveline Schultz

     “O relacionamento entre irmãos é construído dia após dia, mas o amor é à primeira vista. A chegada da Annie (3) balançou a vida da Sophie (6). Ela precisou dividir tudo.  Desde o espaço físico aos corações e atenção do papai e da mamãe. Mas aprendeu que essa divisão vai se transformando em um mundo mais completo.  E o amor foi se multiplicando. O ciúme foi dando lugar a amizade. A preocupação e o carinho foram crescendo com o tempo e a confiança e o cuidado invadiram nossa casa. Percebo uma sintonia entre as duas.  A admiração que a Annie tem pela Sophie é tão verdadeira! Elas são completamente diferentes uma da outra. E isso torna o convívio ainda mais interessante. Elas brigam, disputam atenção e competem todos os dias. Mas têm uma ternura e um companheirismo encantador. A bagunça de uma casa cheia vira rotina, mas representa vida. Espero que elas tenham essa parceria para sempre, assim como eu tenho com a minha irmã. Decidir dar um irmão ao seu filho é um grande desafio, mas acredito que abrir mão de tantas outras coisas vale cada renúncia, pois o amor transforma e a família se completa. A cada dia tenho mais certeza de que a maior herança que os pais podem deixar para um filho é um irmão.”

Eveline Schultz, Mãe da Annie (3) e da Sophie (6)

Confira no youtube, o canal das maninhas: Sophie & Annie


Perguntamos para os irmãos Pedro, Mateus e Arthur:

O que é mais legal em ter irmãos?

 

“Para ter com quem brincar, para ter companhia e ter companheiros. Sou muito feliz porque tenho irmãos.”

Arthur, 9 anos

“Porque podemos nos divertir juntos, brincar lá fora… é coisa de criança, mas bem no fundo do nosso coração, algumas coisas podem dar errado e temos que superar… brincando.”

Mateus, 6 anos

“Pra comer bolo, pra ver cineminha, para jogar video-game e para brincar.”

Pedro, 4 anos