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Tradicional, Construtivista, Montessoriano, Waldorf Conheça os principais métodos de ensino das escolas

Existem muitas formas de ver a educação, seu objetivo e sua forma de acontecer na prática. Nas universidades, é comum organizar essas abordagens pedagógicas de acordo com seu viés político-filosófico ou seguindo suas bases teóricas ou empíricas. Nossa contribuição aqui é mais simples e mais direta: para escolher uma escola para minha criança, o que devo saber sobre as abordagens pedagógicas disponíveis nas escolas ao meu redor?

Texto: Auxiliadora Mesquita | Fotos: Foto Globo (Fabiano Niehues Graudin)

Pensando dessa maneira, vamos indicar algumas características de métodos e pensamentos educacionais que podemos encontrar em nossa região. Isso não significa esgotar as possibilidades oferecidas pela rede de ensino aqui. Também é importante lembrar que muitas escolas não seguem uma abordagem estrita, mas combinam métodos de várias fontes que não são contraditórios entre si. De qualquer forma, saber como a escola de seu filho enxerga a educação e o aluno – e como o professor agirá para alcançar seus objetivos- ajudam bastante na hora da decisão de onde matriculá-lo. 


Abordagem Tradicional:

Quando utilizamos o termo tradicional, toda uma carga de preconceito pode vir junto – “arcaico”, “restrito”, “opressor” e muitos outros comentários negativos. Os comentários positivos também, sendo “sucesso” e “competência”,  são dois dos principais deles. Mas, afinal, o que é essa tradição?

A escola tradicional, ainda que tenha se modernizado na estrutura física e tecnológica no correr dos anos, é aquela que pretende transmitir conteúdos. E não pense que isso é pouca coisa, não! Partindo dos Iluministas franceses do século XVII e XVII, a escola tradicional sempre esteve ligada a ideia de formar os cidadãos. Para isso, seu ensino é padronizado, seguindo o princípio de que todos devem ter acesso ao mesmo patrimônio cultural e de conhecimento de uma sociedade. Uma ideia muito boa e revolucionária: acesso ao conhecimento.

NA PRÁTICA

Uma escola tradicional é voltada para fixar conteúdos, formando um aluno capaz de dar as respostas corretas quando perguntado. O professor detém o conhecimento sobre determinada disciplina e planeja a melhor forma de expor um assunto, utilizando diversos recursos. O aluno deve compreender e ser capaz de replicar o que foi aprendido quando solicitado. Um sistema de avaliação e notas revela o nível de aquisição do que foi transmitido ao aluno.

É INTERESSANTE

Pois considera que ter acesso ao conhecimento dominante é fundamental para fazer parte e interferir na sociedade. Costuma formar mentes disciplinadas, pois há a exigência de cumprir metas, prazos e alcançar níveis mínimos para continuar na escola. São também essas escolas as que mais trazem resultados em vestibulares e outros testes públicos, como ENEM, por exemplo – mas não existem pesquisas a respeito, portanto os resultados podem ser só pelo fato de que essas escolas são a maioria dos estabelecimentos de ensino.

PODE SER UM PROBLEMA

Se o estudante não desenvolver sua capacidade de análise e compreensão, tornando-se apenas um produtor de “respostas certas” , que só podem ser aplicadas em situações idênticas às que estudou. Também é comum que nessas escolas, pela padronização e nível de exigência, características individuais e diferenças sejam ignoradas.


Abordagem Construtivista ou Sócio-Construtivista:

O Construtivismo surgiu a partir das pesquisas do psicólogo suíço Jean Piaget. Ele estudou profundamente a aprendizagem, pesquisando como as crianças agiam e reagiam a diversos estímulos e situações. Para Piaget, a escola deveria ensinar a observar pois é ao se deparar com algo novo e agir sobre ele que a criança aprende. Seus estudos e pesquisas revolucionaram a maneira como enxergamos as crianças – de páginas em branco, que deveriam ser preenchidas, as crianças passaram a ser vistas como seres ativos em sua aprendizagem e busca de conhecimento.

O Sócio-Construtivismo parte das descobertas piagetianas e as expande com as ideias de outro psicólogo, o russo Vygotsky. Esse afirmava que a aprendizagem se dá pela linguagem e na interação com o outro, sejam adultos ou outras crianças. Assim, o aprender por si mesmo de Piaget, investigando e descobrindo o mundo, também inclui, nessa visão, a importância da cooperação e da interação com outras pessoas em torno da criança.

NA PRÁTICA

Escolas construtivistas ou sócio-construtivistas têm professores atentos para propor trabalhos de acordo com o estágio de desenvolvimento de seus alunos. Esses trabalhos costumam envolver temas que funcionam como estímulos para que os alunos investiguem, organizem as informações e resolvam problemas. Na maioria das vezes, enfatiza-se que esse tema seja um problema verdadeiro para o grupo de aprendizes. Aliás, o trabalho em grupo é central nessas escolas, com a cooperação entre os alunos de diferentes capacidades e até faixas etárias diversas estimulando a aprendizagem. Jogos são muito utilizados e há uma tendência para a flexibilidade nos horários, formação de turmas e grades curriculares.

É INTERESSANTE

Pois seu objetivo é desenvolver a inteligência como instrumento de aprendizagem. Um espírito investigativo e crítico é necessário para pesquisar e solucionar os problemas que surgem. Engana-se quem pensa que assim o aluno não vai aprender os conteúdos tradicionais. Apenas a abordagem em relação a eles – sejam de matemática, linguagem, ciências, etc – será feita como ensaio e erro, descobrindo, analisando e superando cada desafio.

PODE SER UM PROBLEMA

Se mal aplicado. Levar adiante a ideia de que a criança aprende por si mesma sem um planejamento rigoroso e uma compreensão bastante clara das teorias pode deixar as crianças à deriva. Também existem críticas ao fato de os alunos não estarem acostumados às formas de avaliação comuns ao sistema educacional mais amplo, como provas e testes – mas até o momento não existem pesquisas que apontem que alunos de escolas construtivistas se saiam melhor, pior ou igual aos outros nesses testes.


Antroposófica (ou Waldorf):

A escola antroposófica surgiu de uma proposta de trabalho – Rudolf Steiner era um filósofo austríaco que havia desenvolvido  uma ciência espiritual, a Antroposofia. Em 1919, foi convidado a criar uma escola para os filhos dos trabalhadores de uma fábrica em Stuttgart, na Alemanha. Desde então, as ideias de Steiner e sua proposta pedagógica se espalharam pelo mundo e estão presentes em muitos lugares do Brasil também.

Uma escola antroposófica irá basear sua pedagogia nas ideias centrais do pensamento de Steiner, a principal delas sendo que cada etapa de ensino deve corresponder à idade do desenvolvimento da criança. Steiner considerava que o ser humano passa por ciclos de 7 anos e para cada um desses ciclos existe um modo próprio de ser e estar no mundo. Nas escolas antroposóficas, a criança é vista como um todo, recebendo educação física, espiritual e intelectual.

NA PRÁTICA

Numa escola antroposófica vai existir atividade do currículo tradicional associada a outras, como habilidades manuais, artes, desenho e escultura. Atividades da vida prática também vão estar presentes. E há ainda a importância da Euritmia, método criado por Steiner que une ritmos e coreografias, de acordo com cada idade.

É INTERESSANTE

Pois entende a criança e o adolescente como um ser humano dotado de várias necessidades físicas, intelectuais, espirituais e estéticas. Essa abordagem mais ampla, conjugada à ideia das fases de desenvolvimento, pode trazer benefícios numa sociedade estressante como a que vivemos no mundo contemporâneo.

PODE SER UM PROBLEMA

Para famílias que não são ligadas aos aspectos religiosos e espirituais, visto que esse lado do desenvolvimento da criança faz parte da pedagogia antroposófica. Pais ansiosos pela alfabetização precoce também podem se frustrar já que o método antroposófico preconiza que atividades intelectuais mais abstratas devem ocorrer a partir da entrada dos 7 anos de idade.


Abordagem Montessoriana:

Maria Montessori foi uma médica italiana, nascida no final do século XIX. Seu trabalho se voltou para a pesquisa sobre as crianças e suas descobertas a fizeram criar um método de ensino. Em 1907, fundou uma escola – a Casa dei Bambini – numa periferia pobre de Roma. O ambiente estimulante imaginado e posto em prática pela Dra. Montessori foi um sucesso e em pouco tempo, outras escolas foram construídas na Itália.

Essa expansão foi bruscamente interrompida pela ascensão de Mussolini ao poder, nos anos 20 do século XX. O método Montessori, por ter surgido a partir do trabalho clínico e científico de Maria Montessori, vê a criança com aspectos biológicos e cognitivos bem específicos que vão se desenvolvendo ao longo do crescimento infantil. E é com base nesses aspectos que as atividades são propostas.

NA PRÁTICA

As escolas montessorianas propõem uma grande autonomia às crianças, que usualmente escolhem suas tarefas e atividades. O professor funciona como um guia e deve respeitar o ritmo de cada aluno, sem intervenções desnecessárias. As classes podem ter crianças com idades diferentes e a concentração na tarefa escolhida por cada criança é bastante incentivada. Os materiais numa sala montessoriana estão sempre ao alcance das crianças e existem vários deles que foram criados especificamente por Montessori para desenvolver diversos aspectos da criança.

É INTERESSANTE

Pois encoraja a independência e a autonomia, respeitando as capacidades e os interesses da criança. Os professores podem propor desafios, mas há um clima geral de respeito e cuidado com cada criança, sua maneira de ser e seu estágio de desenvolvimento. Atividades físicas, de movimento e sensoriais, estão sempre presentes numa sala montessoriana, bem como tarefas que estimulam a organização, a concentração, o pensamento estratégico e a formação de bons hábitos.

PODE SER UM PROBLEMA

Para os pais. A falta de tarefas, atividades e da rotina estruturada já conhecida dos pais (que provavelmente estudaram em escolas tradicionais) pode dar a impressão de que a criança não está se desenvolvendo. É importante que os pais compreendam a abordagem de uma maneira mais ampla para que possam entender o que seu filho ou filha está fazendo e como essas tarefas se encaixam no desenvolvimento da criança.


Essas são as principais abordagens pedagógicas encontradas nas escolas de nossa rede de ensino. Mas lembre-se: essas orientações não substituem uma visita à escola e muita conversa entre pais e pedagogos de cada uma. É essa conversa franca e uma boa olhada no ambiente escolar que irão esclarecer dúvidas e expectativas. Falar de seu filho ou filha nessa visita também ajuda a descobrir se aquela abordagem pedagógica é a melhor para sua criança. Boa sorte e ótima escolha!